** _ Este artigo foi escrito por Luis Kimaid, Cientista Político e CEO da Bússola Tech e Fábio Almeida Lopes, Internacionalista e conselheiro político da Bússola Tech ._ **


Ao longo da história, os avanços tecnológicos mudaram as vidas humanas para melhor.

As novas tecnologias nos possibilitaram reestruturar mecanismos complexos de tomada de decisão pública e até mesmo nossas relações pessoais.

A busca por integrar soluções tecnológicas no processo de tomada de decisão não é simples, muito menos inédita, pois pode exigir mudanças na dinâmica do poder.

Na antiga Atenas, frequentemente proclamada como a primeira sociedade democrática do mundo, os cidadãos eram chamados a deliberar sobre questões da vida política cotidiana, onde exerciam seu direito de voto verbalmente ou depositando pedras de cores diferentes em cédulas chamadas psephos. Até hoje, dois milênios e meio depois, estamos falando de deliberação remota e uso de inteligência artificial para nos ajudar a criar, emendar e revogar leis, bem como para auditar as ações do poder executivo.

Como o advogado e comentarista brasileiro Ronaldo Lemos explica, nossos cérebros têm evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos, mas nossas instituições políticas foram todas forjadas nos últimos dois milênios e meio - e novas tecnologias futurísticas são desenvolvidas a cada dia.

A crise atual causada pela Covid-19 apresenta uma série de desafios para manter as atividades essenciais funcionando na sociedade. Além de hospitais e supermercados, isso inclui o funcionamento do parlamento e de autoridades eleitas - promovendo debates e propondo novas leis que sustentem os esforços de combate ao vírus.

Como são os parlamentos em tempos de distanciamento social

A atividade legislativa - como propor novas leis e fiscalizar a atuação do Executivo - é central neste momento de crise. Mas, ao mesmo tempo, a crise significa que não pode funcionar como normalmente funciona. Numa altura em que o mero encontro de pessoas representa um risco para a saúde pública, os parlamentos, que reúnem centenas de pessoas numa sala, são obrigados a repensar o seu funcionamento - construindo consensos e deliberando - à distância. Alguns estão se voltando para a transformação digital para resolver esse desafio.

O poder legislativo no Brasil é organizado em três níveis diferentes - Federal, Estadual e Municipal - e é representado por 5.599 casas legislativas, 5.570 câmaras municipais, 27 casas estaduais e 2 casas do parlamento. No total, isso soma 59.574 funcionários eleitos, incluindo 81 Senadores, 513 Deputados, 1.059 Deputados Estaduais e 57.921 Vereadores. Todas essas pessoas agora devem encontrar novas maneiras de fazer seu trabalho.

Felizmente, algumas casas legislativas no Brasil testaram nos últimos anos novas formas de usar a tecnologia para apoiar suas atividades - o que chamamos de LegisTech.

Um exemplo notável é o “piso virtual”, o chamado Sistema de Deliberação Remota (SDR), desenvolvido para a Câmara dos Deputados e o Senado no Brasil, que deve ser lançado em 26 de março de 2020. Era preciso desenvolver uma ferramenta com recursos mais especializados do que o software de videoconferência usual.

** A velocidade e agilidade com que os poderes legislativos foram capazes de responder à crise da Covid-19 vem de um processo antigo de construção de expertise por tentativa e erro, o que é essencial para a inovação pública **

O SDR foi desenvolvido pelo departamento de tecnologia, e a arquitetura é composta por um aplicativo que os deputados podem utilizar para registrar sua presença e votar; possui ainda um sistema de gestão do Presidente da Câmara para orientar a sessão, de forma a preservar o processo legislativo e garantir a transparência das medidas já em vigor; e serviço de videoconferência, garantindo acesso remoto a todos os Integrantes, com microfones controlados por servidor público. Uma vez que uma sessão SDR é encerrada, todas as reuniões do comitê são suspensas.

Estamos falando de um processo de construção de uma governança digital que exige esforço, investimento e tempo e não um salto maior do que sua capacidade técnica, muito menos algo que não foi pacificado entre os diferentes líderes.

Desde 2019 a Câmara Municipal de São Paulo usa um sistema semelhante para votar em projetos menos complexos - como datas comemorativas e naming rights - mas esta é a primeira vez que é usado para deliberações tão complexas e importantes.

Outras inovações que merecem destaque são o InfoLeg, um aplicativo de informação, a Nuvem Interparlamentar e o programa de inteligência artificial Ulysses utilizado na Câmara dos Deputados e no portal da e-cidadania (https://www12.senado.leg.br/ecidadania) do Senado Federal.

Na Bússola Tech, estamos colaborando com as pessoas por trás de todas essas iniciativas para construir um ecossistema LegisTech, que irá permitir que outras Casas Legislativas tenham acesso a essa experiência, aumentar sua resiliência digital e fornecer-lhes os meios para digitalizar em resposta a esta e às futuras crises.

Lutando contra os problemas do século 21 com ferramentas do século 21

A velocidade e agilidade com que os poderes legislativos foram capazes de responder à crise da Covid-19 vêm de um processo antigo de construção de expertise por tentativa e erro, o que é essencial para a inovação pública.

O Poder Legislativo tem a capacidade de testar e dimensionar projetos de inovação por meio de gabinetes de deputados individuais, bem como de seus funcionários públicos.

Para impulsionar o movimento transformação digital nas Casas Legislativas, é necessário reconhecer e compartilhar as melhores experiências já existentes no legislativo. Copie, adapte e cole. Em um projeto de pesquisa de 2019, descobrimos que o reconhecimento de projetos de destaque implementados por servidores públicos tem um efeito positivo em seu moral, até mesmo os inspirando a ir além de suas obrigações normais, de forma positiva e propositiva.

** Um problema aprimorado por tecnologias do século 21, requer uma resposta que usa ferramentas e métodos do século 21 **

Nesse sentido, é possível ver um ecossistema florescente no Congresso Nacional Brasileiro, com uma série de projetos de alto nível sendo implementados e uma iniciativa de destaque para premiar os melhores servidores públicos do Parlamento Brasileiro, uma iniciativa chamada "Gente que Inspira "(Pessoas que Inspiraram) do SindiLegis. No nível estadual e municipal não é possível ver um movimento organizado para mapear e reconhecer os casos de inovação nas casas legislativas, perante o Fórum LegisTech.

A colaboração entre as Casas Legislativas em nível Federal, Estadual e Municipal, em conjunto com o ecossistema empresarial, pode potencializar a implementação de projetos como os mencionados acima, ampliar o leque de digitalização e torná-los mais resilientes.

A crise da Covid-19 é, em parte, alimentada por uma mudança sem precedentes na mobilidade humana, que foi provocada pela tecnologia - trens, aviões e automóveis.

Um problema aprimorado pelas tecnologias do século 21 exige uma resposta que use ferramentas e métodos do século 21. Um quebra-cabeça ainda mais complexo para o processo legislativo e para a construção de consensos, em que algumas casas vêem os resultados de anos de investimentos e testes. - Luis Kimaid e Fábio Almeida Lopes

_ (Crédito da imagem: Unsplash) _