Este artigo de opinião foi escrito por Jean Paulo Castro e Silva, ex-diretor de governança de dados do Brasil e candidato a MPA na Lee Kuan Yew School de Políticas Públicas.
Se você já tem uma opinião firme a favor ou contra a privatização de empresas estatais (SOEs) e está simplesmente procurando confirmar o que já acredita, espero desapontá-lo. O que vou mostrar aqui é algo fundamental: manter ou vender um bem do Estado deve ser uma decisão racional, não baseada em ideologia.
Esta é uma recomendação aos governos da OCDE, parte de suas Diretrizes sobre Governança Corporativa de Empresas Estatais, com base em exemplos de melhores práticas de países.
As diretrizes apresentam recomendações sobre como os governos devem gerenciar suas empresas (o que eles chamam de função de propriedade do estado) e sobre como os administradores devem dirigir cada empresa, ou seja, governança corporativa em sentido estrito.
_• Quer escrever para nós? Dê uma olhada no [guia para colaboradores] do Apolitical (https://apolitical.co/opinion-writing-becoming-an-apolitical-contributor/) _
A governança corporativa das SOEs tem duas camadas: uma fora das empresas, vinculada à propriedade do estado, e outra dentro das empresas, realizada pelo conselho que representa os acionistas públicos e privados. É uma boa prática que essas duas camadas sejam separadas, com funções e responsabilidades claras. O governo, na sua função de dono, é responsável pela definição de uma política geral de propriedade estatal, não devendo interferir no dia a dia da empresa.
A política de propriedade do Estado deve reduzir o risco de viés ideológico nas decisões
Essa política de propriedade estatal deve reduzir o risco de viés ideológico nas decisões sobre a detenção ou venda de ativos estatais. Deve demonstrar ao público os resultados que o estado espera das empresas que controla ou nas quais é acionista relevante (internacionalmente, basta uma participação minoritária do governo em uma empresa para que seja considerada uma estatal). Quando os resultados esperados forem alcançados, ou se a estatal não estiver funcionando conforme o planejado, é razoável transferir a empresa para o setor privado ou liquidá-la.
Muitos países desenvolvidos e em desenvolvimento têm políticas claras de propriedade estatal. O governo de ** Cingapura ** controla ou possui ações minoritárias em cerca de 1.000 empresas em todo o mundo por meio da holding Temasek. Sua política de propriedade é orientada para resultados financeiros: os ativos devem gerar metas financeiras de longo prazo ajustadas ao risco, caso contrário, são vendidos ou liquidados.
Na ** China **, existem milhares de SOEs com governança inspirada no modelo de Cingapura. O governo disse que planeja apoiar mais propriedade mista público-privada para atrair investimento privado e aumentar a eficiência das estatais por meio da exposição à concorrência do mercado. Uma maneira de fazer isso é por meio da internacionalização; As estatais chinesas multinacionais são um dos participantes mais ativos nas privatizações recentes no Brasil.
Na ** Índia **, o governo publicou sua decisão de manter pelo menos 51% dos estoques em empresas estatais estratégicas e até 26% da propriedade de empresas não estratégicas ou privatizá-las totalmente. O Parlamento deve aprovar o plano de desinvestimento de cada empresa, seguido de uma avaliação e decisão de venda final feita por uma comissão especializada de alto nível.
Muitas nações desenvolvidas e em desenvolvimento têm políticas claras de propriedade estatal
Na ** Turquia **, o governo implementou um processo semelhante ao da Índia: um conselho de alto nível aprova propostas para ofertas públicas iniciais, que são conduzidas por um órgão governamental especializado na privatização de empresas estatais. A venda de ações do governo só ocorre se a empresa for comercialmente viável e as condições de mercado para a oferta pública forem favoráveis.
O governo da ** Colômbia ** estabeleceu uma estratégia global de ativos comerciais estatais, declarando quais metas cada estatal deve atingir. Eles incluem contribuir para setores estratégicos da economia e do desenvolvimento do país; resolução de falhas de mercado; e fornecer serviços públicos nos casos em que o mercado privado não seja sustentável. Com base nessa estratégia, o governo toma decisões sobre vendas, ofertas públicas, aquisições, fusões ou liquidação.
No ** Brasil **, a lei SOE de 2016 trouxe algumas inovações para a governança corporativa das SOE, movendo-se em direção à separação entre política e gestão empresarial - embora a lei ainda esteja muito aquém das recomendações da OCDE. A lei avança na melhoria da governança corporativa interna das estatais, mas praticamente nada tem a dizer sobre o papel do Estado como proprietário de empresas.
Enquanto o Brasil não tiver uma política de propriedade estatal bem definida, que declare com transparência as razões para manter, privatizar ou liquidar uma estatal, centenas de bilhões de reais brasileiros de ativos públicos correm o risco de ter seu futuro decidido por ideologia e não por princípios racionais.
Para saber mais, dê uma olhada em meu artigo do MPP sobre Oportunidades para Melhoria Institucional na Governança das SOEs brasileiras (em português). - Jean Paulo Castro e Silva
(Crédito da imagem: Pexels)

Inicie sessão ou registe-se para continuar a conversa