** Artigo escrito por Rômulo Fisch de Berrêdo Menezes, Comissário da Polícia Federal do Brasil. **


Um ano depois de gigantescas manifestações de rua contra o governo central da época, o Brasil conseguiu realizar com sucesso a Copa do Mundo FIFA 2014. Dois anos depois, o desafio era entregar com segurança os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016, logo após um processo difícil de impeachment presidencial, em um cenário muito concreto de [ameaças terroristas](https://www.google.com/url ? q = https: //www.usatoday.com/story/sports/2016/06/30/brazil-summer-olympic-games-terrorist-threat-rio/86195558/&sa=D&ust=1594282813125000&usg=AFQjCNF4-zDH1hgXZoG-ZEk0S0L_drGyGy -Q). Organizar os Jogos Olímpicos com segurança requer a colaboração habilidosa de uma longa lista de organizações, algumas das quais estão mais acostumadas a se verem como concorrentes do que como colaboradoras.

Entre tantos desafios, um dos maiores foi imposto à inteligência de segurança pública. Acho que as principais lições que aprendemos com isso se aplicam a qualquer servidor público trabalhando em departamentos governamentais isolados, e de forma encorajadora, a chave para fazer esse trabalho é surpreendentemente simples.

** Para sermos eficazes e eficientes em nossa missão, foi necessário superar vaidades, desconfianças e resistências institucionais, conduzindo o processo de superação das diferenças em prol de um objetivo maior **

Coleta de informação

Inteligência, no sentido clássico, é a produção de conhecimento.

Inteligência moderna é mais: é gestão do conhecimento. No Rio 2016, isso significou identificar, coletar, produzir, armazenar, processar, analisar, divulgar e proteger dados, informações e conhecimentos voltados para a segurança pública, para proteger atletas, delegações e público que esteve presente em um dos mais eventos visíveis no mundo. Essa foi a nossa missão.

Na época, a inteligência de segurança pública dos Jogos Rio 2016 era dirigida pela Secretaria Extraordinária de Segurança de Grandes Eventos (SESGE), por meio de sua Diretoria de Inteligência, da qual fui vice-diretor de 2015 a meados de 2017. Para ser efetivo e eficiente em nossa missão, foi preciso superar vaidades, desconfianças e resistências institucionais, conduzindo o processo de superação das diferenças em prol de um objetivo maior.

A maior dificuldade da inteligência de segurança pública brasileira era lidar com o dilema do desejo (de todos) de acessar outras bases de dados, sem necessariamente compartilhar as suas. O conhecimento é tão vital que todos desejam possuí-lo tanto para si quanto para os outros.

De todos os processos de integração institucional tentados ao longo de quase duas décadas no país, o compartilhamento do conhecimento me parece, sem dúvida, a maior barreira a ser superada.

Colocando todos em uma sala

Nossa primeira tarefa foi estabelecer a legitimidade institucional do SESGE liderando esse processo. Feito isso, começamos o trabalho de estabelecer uma parceria real entre os atores com uma lista interminável de ressentimentos subconscientes, o que parecia uma tarefa impossível.

Mas, curiosamente, a solução óbvia - pelo menos para a urgência do momento - não foi posta em prática de forma eficaz.

Na Copa do Mundo FIFA 2014, já havíamos estabelecido centros integrados de comando e controle, que, simplesmente, são estruturas físicas projetadas para hospedar os responsáveis ​​pela coordenação dos esforços operacionais, para lidar com objetivos específicos pré-determinados. Nossa experiência mostra que atores (geralmente analistas designados por suas respectivas forças) que se encontram na mesma sala e que têm contato diário próximo também podem quebrar a suspeita mútua que era a norma antes.

** Com todos se sentindo parte do processo, foi possível criar um ambiente construtivo e harmonioso, no qual todos foram valorizados por suas contribuições **

Mais do que isso, na área de inteligência de segurança pública, nossa liderança não “ exigir ”que os bancos de dados de forças existentes (https://apolitical.co/en/solution_article/local-governments-prevent-terrorism) sejam compartilhados. Ao contrário, apenas solicitamos que cada ator, de cada órgão policial, tenha condições de acessar suas próprias fontes de informação para que, a partir delas, possam construir em conjunto um conhecimento capaz de assessorar os gestores de segurança pública mais responsáveis. diversas ações descritas nos planos operacionais.

Com todos se sentindo parte do processo, foi possível criar um ambiente construtivo e harmonioso, no qual todos foram valorizados por suas contribuições, independente da área a que pertençam. Mais do que isso, foi possível, em termos concretos, mostrar a todos que o conhecimento gerado a partir do trabalho conjunto proporcionou aos respectivos gestores uma visão muito mais ampla e completa do que a do “método tradicional” derivado da compartimentação institucional.

O impacto das novas metodologias implementadas pelo SESGE na gestão da segurança pública (tanto na inteligência quanto nas ações operacionais) também pôde ser sentido em todas as regiões do país durante o Revezamento da Tocha Olímpica, que levou a “mensagem” a 27 diferentes estados, em uma “maratona” de 335 cidades em 95 dias, com nosso pessoal de inteligência de pé inquieto - e feliz - durante todo o período.

Um farol para todos os funcionários públicos

O sucesso do experimento trouxe mudanças reais e nos ajudou a superar inúmeras barreiras institucionais. Mais do que isso, tem proporcionado a inúmeros gestores a certeza de que é possível trabalhar além dos indivíduos institucionais, com resultados práticos efetivos de grande proporção.

** Participar dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos é uma das experiências mais significativas e memoráveis ​​para praticamente todos os envolvidos **

Com tantas lições aprendidas, ficou claro para todos nós que trabalhamos no “lado da inteligência” nos Jogos Rio 2016, que não há outra maneira de as instituições de segurança pública trabalharem de forma eficaz em sua luta diária para prestar melhores serviços à sociedade : gestão do conhecimento em todos os níveis, coordenada com os diferentes líderes situacionais, mas capaz de induzir uma integração efetiva entre todos os órgãos públicos (e privados), com vistas ao bem de todos.

Participar dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos é uma das experiências mais significativas e memoráveis ​​para praticamente todos os envolvidos. Saber que a segurança de tantas pessoas depende em grande parte do nosso trabalho e que os olhos do mundo estão sobre nós, de alguma forma eleva a nossa responsabilidade ao extremo da dedicação. Cultivar e manter acesa a chama que proporciona sensações como essa é o desafio diário de todo servidor público. - Rômulo Fisch de Berrêdo Menezes

_Rômulo Berrêdo, M.Sc., é um experiente Comissário da Polícia Federal do Brasil. Ex-Subdiretor de Inteligência da Secretaria Extraordinária de Segurança de Grandes Eventos (SESGE) e ex-Coordenador-Geral de Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Atualmente trabalha como Superintendente de Inteligência e Estratégia da Secretaria de Estado de Segurança Pública do Tocantins, Região Norte do Brasil.

_ (Crédito da imagem: Unsplash) _