Este artigo de opinião foi escrito por J [ean Paulo Castro e Silva](https://apolitical.co/profiles/jean- paulo-castro-e-silva). Ele também pode ser encontrado em nosso feed de notícias governamentais digitais .


Suponha que o Departamento Nacional de Trânsito do Brasil (Denatran) precise tomar medidas para reduzir o risco de morte ou ferimentos graves em acidentes de trânsito. A forma mais tradicional de fazer isso seria impor regras mais restritivas e sanções mais rígidas contra infrações de trânsito, mas isso afetaria todos os motoristas indiscriminadamente.

Outra medida menos impopular para alcançar o mesmo resultado seria investigar as condições em que os acidentes acontecem para encontrar as causas com mais precisão e promover ações para reduzir o risco de ocorrência de desastres e minimizar seu impacto.

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No caso da segunda alternativa, o Denatran precisaria de informações sobre incidentes de trânsito, em poder das autoridades militares estaduais; sobre os danos sofridos pelas vítimas, que se encontram nas bases de dados das unidades de saúde; e nos testes realizados com os veículos envolvidos, que podem estar nas bases de dados do Instituto Brasileiro de Metrologia (Inmetro).

A tecnologia para combinar todos esses dados e chegar a conclusões sobre as causas potenciais já existe. No entanto, o Denatran pode enfrentar restrições ao usar essa tecnologia porque as agências que supervisionam esses bancos de dados podem ter restrições ao seu compartilhamento, devido a preocupações com a privacidade de informações pessoais ou sigilo industrial.

Quando diferentes bancos de dados são combinados, novas informações surgem

Este caso hipotético ilustra as oportunidades e desafios do grande volume de dados que está disponível hoje para governos implementando ou melhorando políticas baseadas em evidências.

Em um artigo de maio de 2017, a revista The Economist chamou os dados de "o petróleo da era digital", ilustrando o quão importante eles se tornaram para a economia. A ONU também afirmou que o grande volume de informações acessíveis levará à promoção de e respostas mais eficazes às demandas dos cidadãos.

Para manter o apoio das pessoas em uma era de acesso muito mais fácil à informação, governos democráticos em todo o mundo têm adotado cada vez mais um processo de formulação de políticas baseado em evidências, afastando-se de análises superficiais e decisões arbitrárias, tomadas devido à influência de grupos de interesse.

Mas a dinâmica do mundo atual exige que esse processo de tomada de decisão baseado em evidências mais elaborado também seja mais rápido, o que resulta na necessidade de disponibilidade imediata de informações armazenadas nas inúmeras bases de dados governamentais.

Quando os dados podem ser cruzados, informações inteiramente novas surgem, capacitando soluções mais inovadoras e eficazes

Atualmente, existe uma imensa variedade de conjuntos de dados governamentais. Os bancos de dados variam de dados administrativos (por exemplo, recursos humanos, compras públicas, inventários de ativos) a vários dados sobre cidadania (por exemplo, saúde, pensões, trabalho), economia (por exemplo, produção, comércio, negócios) e o meio ambiente (por exemplo, clima, geografia, recursos minerais )

Quando esses conjuntos de dados são analisados isoladamente, os resultados são limitados a um determinado campo do conhecimento, mas quando os dados podem ser cruzados, surgem informações inteiramente novas, potencializando soluções mais inovadoras e eficazes. Este é um novo paradigma denominado fusão de dados.

A aversão ao risco restringe a fusão de dados

Governos de países desenvolvidos e em desenvolvimento ao redor do mundo têm investido pesadamente na fusão de dados, e o governo federal brasileiro está seguindo essa tendência com um projeto chamado Gov.Data.

Mas no Brasil e em outros países, a tecnologia por si só não tem sido suficiente para promover a fusão de dados devido à relutância dos gerentes de dados em compartilhar os bancos de dados pelos quais são responsáveis.

Esse comportamento conservador dos gerenciadores de dados é compreensível, dadas as experiências anteriores com problemas relacionados à segurança, privacidade e qualidade de dados. Uma vez que a análise de dados se tornou cada vez mais predominante, as ocorrências de roubo de dados também se tornaram predominantes e os gerentes implementaram vários procedimentos de segurança para proteger os bancos de dados sob seu gerenciamento.

Discussões sobre privacidade de informações também surgiram à medida que consumidores e cidadãos se tornaram mais conscientes do uso que é feito de seus dados pessoais e as organizações implementaram regras para preservar o direito ao sigilo. Também aumentaram as preocupações sobre o risco de conclusões enganosas como consequência do uso de dados de baixa qualidade ou interpretação incorreta dos dados coletados.

No Brasil e no mundo, o gestor público é naturalmente avesso ao risco

As soluções para esses riscos foram implementadas em um contexto anterior ao surgimento do paradigma de fusão de dados. Agora, a inovação de dados combinados em um mesmo ambiente tecnológico traz novos riscos que devem ser tratados pelos gestores. No entanto, no Brasil e no resto do mundo, o gestor público é naturalmente avesso ao risco, e isso tem sido um obstáculo para a evolução dos projetos de fusão de dados.

Os governos devem resolver compensações

A solução adotada para enfrentar esse problema mundialmente é a implantação de um sistema de governança que defina regras e responsabilidades nos processos de compartilhamento de dados entre órgãos públicos. Esse sistema de governança deve estar alinhado a uma política nacional de dados, que estabelece diretrizes para promover o uso de dados na implementação e aprimoramento de políticas de desenvolvimento.

Para contribuir com esse processo, a OCDE produziu um guia com recomendações sobre regras de privacidade e uso de informações no governo bancos de dados. Isso se baseia na premissa de que os ganhos na fusão de dados são potencialmente muito maiores do que os danos potenciais, e os governos devem buscar estratégias para promover a coordenação entre as agências para implementar este novo paradigma de gestão pública baseada em evidências.

A ONU também recomenda que os governos se esforcem para resolver os trade-offs relacionados ao compartilhamento de dados para aproveitar o potencial da revolução de dados para promover o desenvolvimento social e econômico.

O patrocínio político é necessário para impulsionar a cooperação necessária para uma revolução digital no governo

No Brasil, um passo importante nessa direção foi dado quando a Lei de Proteção de Dados Pessoais, lançada em agosto de 2018, possibilitou que órgãos públicos compartilhassem seus dados para promover análises relacionadas a políticas públicas. Agora, é preciso regulamentar este artigo da lei, para dar maior segurança aos gestores públicos de bases de dados no compartilhamento das informações que estão sob sua guarda.

O Brasil está no bom caminho para implementar a tecnologia e a infraestrutura legal necessária para promover o compartilhamento e permitir a fusão de dados. No entanto, é necessário apoio político para promover a cooperação necessária para possibilitar a revolução digital plena no governo, sem a qual corremos o risco de aumentar ainda mais nosso fosso com aqueles que já estão à frente do maior país da América do Sul. - Jean Paulo Castro e Silva

(Crédito da imagem: Pexels)


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