_ ** Camila Penido é gestora pública e atual Coordenadora de Segurança e Armazenamento de Dados Técnicos da Agência Nacional do Petróleo. ** _


Recentemente, peguei um táxi no Rio de Janeiro e, enquanto não chegávamos ao meu destino, o motorista compartilhou comigo uma das últimas conquistas de sua querida filha: ela acabara de passar em concurso e logo se tornaria funcionária pública!

Ele, um pai muito orgulhoso, estava feliz, mas principalmente aliviado por "agora ela estar a caminho" e não haver motivo para se preocupar com o futuro da filha.

Conseguir um emprego no setor público é a meta de vida de muitos brasileiros: em geral, significa um emprego estável, com um salário acima da média [Brasil](https://apolitical.co/solution_article/scaling- digital-how-brazil-is-rewiring-government /), e com inúmeros benefícios. [De acordo com estudos do Banco Mundial](http://documents.worldbank.org/curated/en/449951570645821631/Gest%C3%A3o-de-Pessoas-e-Folha-de-Pagamentos-no-Setor-P%C3% BAblico-Brasileiro-o-Que-Os-Dados-Dizem), nos últimos vinte anos, o número de servidores públicos federais cresceu mais de 80%. Como resultado, as despesas com pessoal aumentaram consideravelmente: só em 2018, o estado brasileiro gastou cerca de 10% do produto interno bruto (PIB) com os salários dos funcionários.

Isso tem se mostrado cada vez mais insustentável. Com isso, o governo tem defendido uma reforma administrativa que torne mais eficiente a gestão de pessoas, devolvendo o equilíbrio aos orçamentos públicos. A questão na mente de muitas pessoas é se a reestruturação do sistema do setor público (RH do governo) pode ajudar a reduzir os gastos públicos e modernizar o aparato estatal brasileiro.

Os tempos estão mudando

Desde 2014, o Brasil atravessa um período de crise econômica, política e fiscal que anuncia grandes desafios para o serviço público brasileiro e para as pessoas que nele trabalham.

Segundo dados disponíveis no site do Ministério da Economia, o governo brasileiro possui atualmente 299 carreiras diferentes e, nos últimos 10 anos, os reajustes salariais têm sido superiores à inflação. Além disso, a progressão no serviço público geralmente ocorre de forma automática e não está associada ao aumento da produtividade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já anunciou que a reforma administrativa é uma das grandes prioridades do governo e que estão a ser elaboradas propostas que contemplam, entre outras medidas, o fim da estabilidade na carreira pública e o despedimento por baixo desempenho.

[Em um relatório](http://documents.worldbank.org/curated/en/449951570645821631/Gest%C3%A3o-de-Pessoas-e-Folha-de-Pagamentos-no-Setor-P%C3%BAblico- Brasileiro-o-Que-Os-Dados-Dizem), lançado em outubro de 2019, o Banco Mundial descreveu como o setor público brasileiro poderia ser reestruturado. Primeiro, centenas de carreiras com cargos específicos tornam isso difícil para servidores públicos para mudar de emprego. Além disso, o ingresso no serviço público geralmente ocorre no início da carreira e, devido ao modelo de progressão, recompensa funcionários desmotivados no topo da carreira ou pessoas sem as habilidades esperadas para o trabalho.

** Este é o fim do emprego dos sonhos? **

Diante dessas recomendações, o governo está considerando um sistema de remuneração que reduza os salários iniciais e promova a progressão com base no desempenho, em vez do tempo de serviço. Os novos modelos propostos assentam essencialmente nas transformações do serviço público europeu, nomeadamente no que diz respeito ao modelo de contratação de servidores.

No Reino Unido, por exemplo, é possível contratar profissionais qualificados do setor privado para ingressar nos níveis mais elevados de carreiras públicas. Outro país que tem sido fonte de inspiração é Portugal. Em 2008, o país realizou uma reforma administrativa bem-sucedida, que permitiu reduzir mais de 1000 carreiras públicas a apenas três, e acabar com as progressões automáticas por tempo de serviço.

O serviço público continuará a ser um emprego dos sonhos?

Embora todos concordem que a reforma administrativa é inevitável no Brasil, é necessário apontar alguns desafios importantes.

Em primeiro lugar, a implementação enfrentará resistências dos sindicatos e de parte da sociedade que vê na função pública a oportunidade de um emprego estável e bem remunerado. Além disso, é necessário adaptar as histórias de sucesso de outros países à complexa realidade brasileira, considerando a singularidade do sistema federal brasileiro.

Dada a necessidade de o governo controlar os gastos públicos, o serviço público será indiscutivelmente redesenhado, o que levará à redução dos benefícios para os servidores públicos e à introdução de modelos mais modernos de avaliação de desempenho.

No entanto, resta a dúvida de que essas mudanças serão suficientes para tornar a Administração Pública brasileira mais eficiente. Outra pergunta: será o fim do emprego dos sonhos? - Camila Penido

_ (Crédito da imagem: Unsplash) _