Este artigo é da autoria de Elisabete Ferrarezi, doutora em Sociologia e mestre em administração pública. Elisabete é especialista em políticas públicas e gestão do Governo Federal do Brasil, com experiência em planejamento, desenho e gestão de políticas públicas, desenvolvimento social, laboratórios de inovação e capacitação de servidores públicos.
O problema: A crescente política antidemocrática no mundo e a política do inevitável nos impedem de imaginar um futuro com possibilidades políticas.
Por que é importante: Para imaginar o futuro, devemos lutar contra a ideia de inevitabilidade e a visão de catástrofe porque, se o futuro é ameaçador, evitamos pensar nele.
A solução: Fortalecer o processo de democratização interrompido no Brasil, desenhar futuros desejáveis com os cidadãos e pactuar políticas públicas necessárias no contexto de crise.
A crescente política antidemocrática que assola o mundo e a ideia de que o futuro está dado, ou ameaçador, tem nos impedido de imaginar um futuro com possibilidades políticas.
Os instrumentos utilizados pelos regimes autocráticos são, em geral, a repressão da sociedade civil , a censura da mídia, os ataques às instituições formais e a polarização política que invoca o desrespeito aos opositores, e dissemina fake news e discurso de ódio.
Esse padrão tem se manifestado fortemente no Brasil nos últimos anos, como revelam os confrontos do Governo Federal com o Judiciário , seus ataques à imprensa , à ciência , aos direitos humanos , ao sistema eleitoral e aos transtornos da gestão pública. Segundo o relatório do Instituto V-Dem , o Brasil é o quarto país que se distanciou da democracia em 2021 em um ranking de 202 países analisados.
Para imaginar o futuro, devemos combater a ideia de inevitabilidade, o discurso da eternidade e a visão da catástrofe.
A hipótese de Timothy Snyder [1] sobre o fim da história sugere que as democracias liberais e o capitalismo representam o fim da evolução da humanidade. Isso se baseia na ideia de que o futuro é a repetição do presente, e as "leis" do mercado se tornariam poderosas demais para que qualquer outra coisa fosse feita.
Isso ele chama de "política do inevitável". A possibilidade de gerar novas ideias é negada e a responsabilidade cívica de promover a mudança desaparece. Mas cada vez menos pessoas acreditam que o futuro reserva algo melhor para elas. E daí pode entrar em jogo, segundo o autor, a política da eternidade em que o governo constrói um mito de inocência e perigo, podendo apenas se precaver contra ameaças, inserindo a sociedade em um padrão cíclico de vitimização. Nela, políticos fabricam crises, dramas cotidianos, inimigos, e manipulam sentimentos, na renúncia à verdade dos fatos.
As estratégias são semelhantes no caso do Brasil e de muitos outros países. Invocar sentimentos (como os de um fictício passado glorioso da ditadura), manipular fatos e crenças (como as vacinas) e fabricar inimigos (o bem contra o mal - adversários e críticos), têm sido usados com eficácia pelo atual presidente do Brasil ( 2019-2022). A democracia está sendo corroída por dentro e muitos não reconhecem os riscos desse processo porque sem democracia a ideia de um futuro preferível desaparecerá do pensamento político e nos aprisionará no presente.
Precisamos resgatar nossa capacidade de nos comunicar e debater com quem pensa diferente de nós.
Para imaginar o futuro, devemos combater a ideia de inevitabilidade, o discurso da eternidade e a visão da catástrofe porque se o futuro nos ameaça, matamos a esperança e evitamos pensar nele. Assim, ao invés de pensar no provável, que limita as alternativas e desestimula a ação, podemos ter a ambição de projetar futuros desejáveis, pactuar políticas públicas necessárias em contextos de crise. Antes, porém, temos o dever cívico de fortalecer o processo de redemocratização interrompido no Brasil, sem o qual não haverá espaço para criar possibilidades, ampliar ou garantir os direitos dos cidadãos.
Podemos planejar com um propósito comum rumo a futuros preferíveis, desenhando soluções junto com cidadãos e instituições, ampliando as possibilidades de atuação que gerem valor público e promovam o desenvolvimento.
Precisamos resgatar nossa capacidade de comunicar e debater com quem pensa diferente de nós . Identificar os fundamentos morais que os não democratas usam para se filiar pode ser útil para elaborar estratégias discursivas para combater os reacionários e trazer de volta a esperança de um futuro melhor. Estar em desacordo, mas gerar entendimento, sem o maniqueísmo atual, exigirá outras táticas, muito além do cancelamento da mídia, que nos mantém presos na polarização tóxica de estar no presente e no passado.
Com a vitória de Lula nas eleições e seu compromisso com o futuro dos cidadãos, nasceu uma oportunidade de reconstruir a democracia, as instituições e as políticas públicas e fortalecer o Estado de Direito.
Este artigo foi adaptado do original em Desmonte de políticas públicas no Brasil: contribuições técnicas para o debate. Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Brasília: ANESP, 2022.
👋 Você pode criar um post como este! Compartilhe suas ideias com uma comunidade de servidores públicos. Saber mais
(Crédito da imagem: Unsplash)
Certifique-se de partilhar as suas próprias ideias com o autor ao deixar um comentário abaixo

Inicie sessão ou registe-se para continuar a conversa