Este artigo foi escrito por Ilana Trombka, Diretora-Geral do Senado Federal do Brasil e Henrique Salles Pinto, Assessor Legislativo do Senado Federal do Brasil.
- O problema: enquanto a violência contra as mulheres aumenta, a representação de gênero nos parlamentos permanece baixa em muitos países.
- Por que é importante: a baixa representação feminina nos parlamentos é um obstáculo para enfrentar a violência contra as mulheres de forma adequada.
- A solução: Grupos de equidade podem ser importantes para auxiliar as parlamentares no processo de formulação de políticas públicas de seu interesse.
Contexto
Atos de violência contra as mulheres são uma realidade lamentável em muitos países e não se conformam com etnia, crença religiosa ou classe social. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) , estima-se que 35% das mulheres de todas as nacionalidades já sofreram algum tipo de violência física por parceiro íntimo ou por não parceiro em algum momento de suas vidas.
No Brasil, o combate à violência de gênero apresentou resultados mais efetivos após a aprovação da Lei 11.340/2006 . Também conhecida como Lei 'Maria da Penha' , esse diploma normativo, segundo seu artigo primeiro, “cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher [...]; prevê a criação de Juizados de Combate à Violência Doméstica Contra a Mulher; e dispõe sobre medidas de atendimento e proteção à mulher em situação de violência doméstica e familiar”.
Ressalta-se a importância do Congresso Nacional brasileiro não só para criar a referida lei, mas também para aperfeiçoá-la e estabelecer medidas complementares de enfrentamento à violência contra a mulher . Tais medidas são necessárias e urgentes, pois, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2019) , mais de 1.200 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2019, 4% a mais que o percentual de 2017.
O que aconteceu/O que deveria acontecer
Realizamos pesquisa para melhor compreender o processo legislativo relacionado a políticas públicas específicas que visam ao enfrentamento da violência contra a mulher no Congresso Nacional brasileiro, cujas Casas tradicionalmente têm baixa representatividade de gênero. Para a 56ª Legislatura , apenas 11 senadores e 77 deputados federais eram mulheres, o que corresponde a 13,58% e 15,01% dos mandatos do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, respectivamente. A partir dos dados obtidos nas duas casas parlamentares, foi possível identificar duas atividades do processo em questão: 1) os projetos em andamento que têm como objetivo o enfrentamento da violência contra a mulher; e 2) os relatórios desses projetos.
A metodologia da pesquisa considerou todos os projetos de lei (PL) e projetos de lei complementar (PLP) arquivados ao longo dos três primeiros anos da 56ª Legislatura (2019 a 2021) que visam o enfrentamento da violência contra a mulher e que não foram anexados a outros projetos de lei. As tabelas a seguir apresentam os resultados obtidos.
Tabela 1: Autoria dos projetos de enfrentamento à violência contra a mulher apresentados entre 2019 e 2021 (projetos em tramitação na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2022)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados obtidos da Câmara dos Deputados do Brasil.
Tabela 2: Autoria dos projetos de enfrentamento à violência contra a mulher apresentados entre 2019 e 2021 (projetos em tramitação no Senado Federal em fevereiro de 2022)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados obtidos no Senado Federal.
A pesquisa realizada teve também como objetivo compreender a participação de mulheres e homens nos relatórios destes projetos, concretamente os projetos apresentados entre 2019 e 2021 que não estavam adstrito a nenhum outro projeto e para os quais tinha sido atribuído pelo menos um relatório ao longo da sua execução. processo. Com base nessa metodologia, foram encontrados 94 projetos na Câmara dos Deputados e 7 projetos no Senado Federal. Os Gráficos 1 e 2 resumem o perfil dos atuais relatores [1] desses projetos.
Gráfico 1: Perfil do atual ou último relator de projetos de enfrentamento à violência contra a mulher apresentados entre 2019 e 2021 (projetos em tramitação na Câmara dos Deputados em fevereiro de 2022) 
Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados obtidos da Câmara dos Deputados do Brasil.
Gráfico 2: Perfil do atual ou último relator de projetos de enfrentamento à violência contra a mulher apresentados entre 2019 e 2021 (projetos em tramitação no Senado Federal em fevereiro de 2022)

Fonte: Elaborado pelos autores com base em dados obtidos no Senado Federal.
O resultado da pesquisa mostra que as parlamentares são mais atuantes do que os parlamentares no Congresso Nacional brasileiro quando atuam no combate à violência contra a mulher.
Prato principal
Segundo Meyer (2003) , há uma maior permeabilidade de questões ligadas à regulamentação da equidade de gênero em partidos que apresentam plataformas mais progressistas, como os conhecidos partidos de esquerda. Essa questão parece se reproduzir da mesma forma no Brasil hoje – espera-se que os partidos de esquerda no país consigam manter seus filiados engajados em maior quantidade e qualidade (ALMEIDA, 2015; PINTO; SILVEIRA, 2018).
A análise de Meyer (2003) sobre o Bundestag alemão demonstra que a participação de mulheres parlamentares também foi importante para reverberar posições de grupos feministas de fora do parlamento. Segundo Meyer (2003), portanto, é importante que os partidos políticos tomem medidas concretas para incentivar a participação política das mulheres, o que contribui para o aumento do número de mulheres no parlamento e nos partidos políticos.
Quando Höhmann (2020) analisou o parlamento alemão, especificamente entre 1998 e 2013, foi possível validar a hipótese que diz respeito à atuação parlamentar baseada em interesses de gênero. De fato, a autora afirma que os parlamentares do sexo masculino tendem a reduzir a intensidade de seu apoio aos interesses das mulheres se a proporção de mulheres no parlamento for alta.
No Brasil, os parlamentares do sexo masculino tendem a reduzir a intensidade de seu apoio aos interesses das mulheres, mesmo que a proporção de mulheres no parlamento seja baixa. Considerando as hipóteses apresentadas por Höhmann (2020), o caso brasileiro estaria mais próximo daquele segundo o qual os parlamentares do sexo masculino se sentiriam ameaçados pelo engajamento das mulheres no processo legislativo e, por isso, não as apoiam ou as apoiam pouco em os temas de seu interesse, com medo de perder espaço no parlamento.
As motivações para esse engajamento significativo, mesmo em um contexto de sub-representação, podem ser compreendidas por meio da análise de Meyer (2003), segundo o qual as parlamentares, apoiadas por outros grupos de mulheres, tendem a potencializar sua atuação no processo de formulação de políticas públicas. políticas de seu interesse. O caso brasileiro é emblemático nesse sentido, com diversas medidas institucionais de enfrentamento à violência contra a mulher. No Congresso Nacional, por exemplo, é importante considerar a atuação da Comissão Permanente Mista de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (CMCVM), da Procuradoria Especial da Mulher e da Comissão Permanente de Promoção da Igualdade de Gênero e Raça de o Senado Federal brasileiro, entre outras instituições.
Se Höhmann (2020) propõe a hipótese de um “transbordamento positivo” na perspectiva parlamentar – segundo a qual, à medida que as mulheres colocam as questões de gênero na agenda parlamentar, os homens passam a apoiar essas questões, e agem com mais frequência para promover os interesses das mulheres, então também é possível formular essa hipótese considerando uma perspectiva extraparlamentar. Isso se basearia no exemplo brasileiro, pois as estratégias de equidade realizadas por servidores e partidos políticos que apresentam plataformas mais progressistas podem impulsionar o desempenho da maioria sub-representada nos parlamentos. O teste dessa hipótese pode ser realizado em pesquisas futuras.
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(Crédito da imagem: Unsplash)
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