Este artigo foi escrito por Luís Guilherme Izycki, Conselheiro da Escola Nacional de Administração Pública do Brasil.
A inovação é um tema transversal na sociedade deste século, fazendo parte da estratégia contemporânea dos Estados. Considerando o conceito de hélice tripla de Henry Etzkowitz e Leydesdorff, que descreve o modelo de inovação baseado na relação tripé entre academia, empresas e governo, a Escola Nacional de Administração Pública, por meio do GNova, Conselho de Inovação da Escola, orientou a resolução do problema: Como podemos incentivar a solução de problemas públicos pela sociedade por meio da inovação aberta?
Para tanto, foi criada a Plataforma Desafios para soluções aos desafios públicos presentes nas entidades públicas brasileiras.
Voltada para promover o debate público, a plataforma permite a participação de cidadãos, servidores públicos, empresas e especialistas na proposição de soluções em forma de licitações, com premiação em dinheiro e/ou soluções aceleradoras, a fim de otimizar a entrega de valor do governo e do mercado para a sociedade.
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A plataforma também traz uma nova dimensão à execução de políticas públicas, proporcionando novas formas de estimular pessoas que inspiram segmentos estratégicos para o governo. Um exemplo foi a realização de desafios de comércio exterior na plataforma, incentivando soluções selecionadas em desafios relacionados ao comércio exterior.
Construindo a plataforma
A Plataforma Desafios foi criada por servidores federais que estão a serviço do GNova, Diretoria de Inovação da Escola Nacional de Administração Pública. A Plataforma está atualmente na versão 2.0 e tem sido utilizada por diversos órgãos públicos como Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Ministério da Agricultura, diversas agências reguladoras e prefeituras.
O sucesso das iniciativas de inovação aberta exige a adesão da sociedade aos desafios propostos pelo governo. A participação pode ser constatada pelos mais de 3 mil participantes inscritos nos 37 desafios públicos realizados.
Como inovar
A inovação pode ocorrer internamente ou por meio de aquisições externas. A inovação aberta envolve a colaboração com atores externos. No setor público brasileiro, existem barreiras para aquisição e implementação de soluções inovadoras devido à lógica de licitação. A inovação aberta propõe um processo que amplia a visão das soluções existentes, cria espaços para testes e traz segurança jurídica às compras públicas. Uma estratégia é iniciar o processo de compra com uma competição baseada no problema real, ao invés de definir a solução exata a ser adquirida. Os participantes propõem soluções e testam-nas em ambiente real. Um painel de avaliadores seleciona as soluções vencedoras.
Nos últimos anos, temos testemunhado a multiplicação de prêmios e competições abertas de inovação em governos nacionais e subnacionais no Brasil e no mundo. Porém, conceder prêmios para solução de problemas públicos é uma prática antiga. Há mais de 200 anos, Napoleão Bonaparte lançou um prêmio no valor de 12 mil francos com o objetivo de incentivar o desenvolvimento de tecnologias de conservação de alimentos. Quinze anos depois, Nicolas François Appert foi declarado vencedor ao apresentar um processo que ainda hoje é utilizado na produção de conservas.
A realização de premiações e competições baseadas em desafios públicos vem consolidando o jovem ecossistema de colaboração entre governos, empresas, academia e cidadãos para o desenvolvimento e implementação de soluções inovadoras no setor público. Esses apelos à participação da sociedade na resolução de problemas públicos podem acontecer em qualquer fase de um processo de inovação, desde o diagnóstico até a implementação de novos produtos e serviços. A imagem abaixo mostra os diferentes estágios em que é possível aproveitar os desafios da inovação aberta para melhorar as entregas governamentais.
Fonte: Rizardi, Santos (2022). INOVAÇÃO ABERTA NA PRÁTICA Como desenhar desafios públicos que gerem soluções criativas para a ação governamental
Diante desse cenário, os servidores da Escola Nacional de Administração Pública desenharam o processo e o sistema online que possibilitou a existência da Plataforma Desafios, onde as entidades públicas brasileiras têm a opção de criar desafios públicos com o auxílio de um kit de ferramentas, onde é apresentado todo o processo de criação, inclusive as etapas burocráticas.
Aprendendo lições
A inovação aberta no governo ensina acima de tudo que a cooperação e a cocriação podem gerar ideias e iniciativas incríveis para a sociedade. Ao trazer os problemas públicos para o debate com a sociedade civil , oferecendo a possibilidade de compensação financeira e metodológica para a aceleração dos negócios, o governo não só incorpora a inovação nos serviços e processos públicos, mas também incentiva o empreendedorismo e a criatividade na sociedade.
Além de ser uma política pública para promover a inovação de mercado, por meio da inovação aberta o governo se torna mais transparente e demonstra à sociedade que é possível atuar em estreita colaboração com a sociedade civil, oferecendo um papel ativo na construção de soluções públicas. Num cenário de questionamento do regime democrático e do papel das instituições, o aceno promovido pela inovação aberta à sociedade é um incentivo no sentido de reduzir a distância entre cidadãos e gestores públicos.
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(Crédito da imagem: Unsplash)
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