** Artigo escrito por Fernanda Cunha Pirillo Inojosa, coordenadora de emergências ambientais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) **
Se você tivesse uma visão panorâmica de um cenário de desastre, provavelmente notaria, entre outras coisas, a implantação da polícia, forças de defesa civil, bombeiros e agências humanitárias.
Mesmo desse ponto de vista, no entanto, seria difícil dizer com certeza quem estava no comando. Diferentes autoridades tendem a entrar em conflito sobre decisões importantes, especialmente se a crise em questão é uma da qual ninguém tem experiência anterior e para a qual nenhuma ação coordenada foi acordada.
Trabalhando como analista ambiental no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) nos últimos 15 anos, tive a oportunidade de participar de algumas respostas importantes a desastres ambientais.
Em 2019, eu estava envolvido na resposta a um [rompimento de grande barragem de mineração](https://www.nationalgeographic.com/environment/2019/01/brazil-brumadinho-mine-tailings-dam-disaster-could-have-been -evoided-say-Environmentalists / #: ~: text = Brazil's% 20deadly% 20dam% 20disaster% 20in% 20Brumadinho% 20was% 20preventable & text = Members% 20of% 20a% 20rescue% 20team,% 2C% 20on% 20January% 2028% 2C% 202019.), que matou mais de 200 pessoas. No mesmo ano, houve um derramamento de óleo que afetou 11 estados brasileiros, e para cujo responsável ainda é desconhecido.
Com base na minha experiência, as tarefas mais difíceis durante uma emergência são lidar com duas coisas: egos e informações. Pode-se pensar que tais obstáculos só alcançam proporções avassaladoras em desastres igualmente avassaladores, mas a verdade é que eles podem superar incidentes relativamente “pequenos”.
E mesmo os menores eventos, capturados pela lente de aumento da mídia, podem se tornar enormes se esses fatores não forem dominados primeiro.
Combinando os números
Hoje em dia, basta ter bom senso para reconhecer o desafio de gerenciar informações em torno de um grande evento.
Tudo está online, quase todo mundo tem acesso à internet, e as notícias aparecem praticamente em paralelo com os eventos, por meio de redes de radiodifusão e mídias sociais. Se os dados da polícia sobre o número de mortes forem diferentes dos dados de uma agência humanitária, digamos, então os números certamente serão diferentes e a mídia estará por toda parte. Isso acontecerá independentemente da eficiência de uma [resposta a desastres] real (https://apolitical.co/en/solution_article/mobile-phone-data-could-help-speed-up-crucial-aid-to-disaster-victims) é.
** Uma parede cheia de mapas e listas, junto com alguém (ou uma equipe) responsável por mantê-la atualizada, é mais eficaz do que uma colcha de retalhos de bancos de dados isolados. **
Números conflitantes podem causar confusão e arruinar reputações. O Ibama e a Marinha, por exemplo, trabalharam muito bem juntos na inédita resposta ao derramamento de óleo de 2019. No entanto, as instituições tinham metodologias diferentes para considerar uma localidade “limpa” ou “não limpa”.
A mídia sempre mencionou os diferentes números e essa variação sutil não apareceu na grande maioria das reportagens. Assim, foi acordado um método de classificação unificado entre as instituições federais que participaram da resposta, evitando críticas desnecessárias e prejudiciais.
Para minimizar esse problema, os participantes de instituições de resposta a desastres devem ter um sistema centralizado no qual todas as informações de um evento sejam carregadas. A mídia deve então ser informada sobre os horários específicos em que novas informações serão divulgadas, seja por meio de um site ou de uma coletiva de imprensa.
Já existem formas de software que atendem a essa necessidade de unificar e organizar dados, mas procedimentos e protocolos claros são mais úteis do que a mera existência de tecnologia ultramoderna. Uma parede cheia de mapas e listas, junto com alguém (ou uma equipe) responsável por mantê-la atualizada, é mais eficaz do que uma colcha de retalhos de bancos de dados isolados.
Reinando em egos
Gerenciar egos é talvez a questão mais delicada, mas deve ser tratada da mesma forma. Sem uma cadeia de comando clara, algumas pessoas surfarão na onda da resposta ao desastre, em busca de visibilidade, posição, votos ou o que quer que os avance.
Alguém em busca de votos futuros, por exemplo, pode postar fotos em um centro de comando de incidentes ou nos sites danificados, sugerindo algumas ações completamente ilógicas ou inviáveis do ponto de vista técnico. Tais comentários, no entanto, são apreciados pelo público em geral, iniciando ações civis públicas absurdas e demandas judiciais que apenas desviarão o esforço de resposta das prioridades.
Uma medida com a qual as equipes podem se proteger dessa divergência negativa é um sistema de gerenciamento de crises, como o Incident Command System (ICS). O ICS é uma metodologia padronizada utilizada por instituições com o propósito de trabalhar em conjunto em um cenário de desastre, com funções pré-estabelecidas.
Essas funções geralmente incluem a organização de recursos, fluxos de comunicação e cadeias de comando por várias agências. O ICS possui uma estrutura expansível que se estende ou desaba de acordo com as necessidades de cada situação.
O "comando unificado" do sistema é seu pessoal pré-atribuído de instituições-chave, que tomam decisões cooperativamente e, portanto, decidem quem está realmente no comando e tem autoridade para falar com a mídia, por exemplo.
Será muito complicado (quase impossível na verdade) implementar um ICS durante, ao contrário de antes, uma emergência. As instituições devem, portanto, estudar cenários de desastre e ensaiar seu sistema ICS.
** É muito mais confortável lidar com a incerteza se as ferramentas e os rostos na mesa forem familiares. **
No Brasil, agências governamentais e empresas privadas fazem exercícios de teste a fim de se preparar para um incidente. Os exercícios variam em tamanho e finalidade. É possível, por exemplo, exercitar a comunicação em minutos, ou passar um dia em um exercício de mesa, ou dois ou três dias implantando equipamento real ao testar movimentos da teoria para a prática. A ideia principal por trás de cada exercício, entretanto, é errar antes que se torne real.
Gerenciando mini-crises
Felizmente, grandes desastres não ocorrem todas as semanas. Mas as mesmas ferramentas podem e devem ser aplicadas por instituições em crises menores. Isso não apenas ajudará os servidores públicos a dominar as ferramentas, mas também lembrará as equipes que pequenos desastres crescem como uma bola de neve com o tempo.
Nas primeiras semanas do derramamento de óleo, por exemplo, os atores envolvidos não sabiam que afetaria mais de mil localidades costeiras nos próximos meses. Quando a situação se agravou, todas as informações foram felizmente organizadas no ICS.
Outra razão para usar um ICS é construir relacionamentos e confiança entre os representantes. Durante uma emergência, pode ser necessário tomar decisões sem todas as informações ou estudos que se deseja. Incertezas e pontos cegos fazem parte de um cenário de crise, e não tomar nenhuma decisão é em si uma decisão, muitas vezes com consequências.
É muito mais confortável lidar com a incerteza se as ferramentas e os rostos à mesa forem familiares. E como já foi mencionado, os egos naquela mesa se farão conhecidos, colocando você à frente da curva antes que o próximo desastre real ocorra.
Para resumir, aqui estão cinco dicas que podem ajudar a preparar e manter a cabeça fria em uma crise:
- Planeje exercícios regularmente com as principais instituições;
- Prepare-se para coletar e divulgar informações de forma organizada e unificada;
- Conheça as pessoas com quem vai trabalhar;
- Pré-designar equipes para as funções do ICS;
- Implemente o ICS, mesmo em eventos pequenos. — Fernanda Cunha Pirillo Inojosa
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(Crédito da foto: UnSplash)
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