_Este artigo é escrito por Luna Viana, funcionária pública do Governo Federal brasileiro. _
- O problema : o processo de transição do governo pode ser complicado.
- Por que é importante: uma relação executivo-legislativo viciosa ou difícil pode criar uma situação de impasse ou altos custos de governabilidade.
- A solução: conduzir um processo de transição de governo em que o executivo articula o relacionamento.
O Brasil está passando por uma transição política significativa. Mas tem sido difícil: o governo cessante não está disposto a cooperar para uma transição suave do poder político.
Mas como você pode gerenciar uma transição tão complicada? O novo líder político tem uma longa lista de desafios. Deve administrar os riscos de ataques dos perdedores e dos que se consolidaram como oposição. Além disso, é preciso lidar com disputas internas, pois a perspectiva de tomada do poder faz com que grupos internos lutem para assumir o maior número de cargos no governo.
Solução de problemas 101
A trajetória crítica do processo de transição política também redefine a relação entre o Executivo e o Legislativo. Novos governos devem aproveitar o calor das eleições e o apoio das urnas para “pivotar” os termos da negociação: ou seja, colocar os preços de negociação o mais baixo possível, valorizar os instrumentos de que dispõem para obter apoio (o que poderia foram desvalorizadas durante o declínio da administração do governo cessante).
Partindo da perspectiva de que o Executivo dispõe de uma caixa de ferramentas para administrar as relações com o Legislativo e do fato de que essas ferramentas foram desvalorizadas durante o último governo, o novo governo eleito poderia buscar:
- Definição da estrutura organizacional do novo governo (ministérios e secretarias), distribuindo programas e orçamentos estratégicos entre eles, mas mantendo alguns mais “estratégicos” do que outros. Dessa forma, esses ministérios ou secretarias mais valorizados funcionam como “cotas de patrocínio político”.
- Reduzir drasticamente a necessidade de liberação de recursos para obtenção de apoio eleitoral nos primeiros 100 dias. Pode-se definir logo no início do processo de transição política o pacote de medidas que será enviado ao Congresso em 1º de janeiro, com cerimônia envolvendo os líderes políticos dos grupos que se comprometem com o novo governo.
- Alterar os termos de negociação com o Congresso, restabelecendo, definitivamente, os termos de negociação legados pelo último governo. Isso está ancorado no calor dos resultados das urnas. Este não é o caso das pesquisas recentes no Brasil, onde os resultados eleitorais apenas aprofundaram a divisão social.
Quando os resultados das eleições refletem um país dividido e não há “calor nas urnas”, torna-se mais desafiador mudar os termos da negociação. Recorrer a uma base programática que una a sociedade pode ser um instrumento para ter a opinião pública como aliada no processo de negociação.
O que fazer a seguir
O governo precisa estabelecer desde o início uma estratégia para lidar com o legislativo. Isso deveria incluir estratégias de gestão da base de apoio (para que ela permaneça no apoio), de gestão do “centro” e de gestão da oposição. Uma unidade organizacional de gestão das relações com os parlamentares deve ser bem estruturada, com liderança e equipe com habilidades de negociação e articulação institucional.
Recorrer a uma base programática que una a sociedade pode ser um instrumento para ter a opinião pública como aliada no processo de negociação.
Uma forma de lidar com uma grande base de apoio, na qual grupos divergentes disputam posições de poder, é ampliar a agenda de prioridades. Isso significa valorizar agendas e unidades organizacionais pelo que são ou podem se tornar no novo governo. É interessante pensar em mecanismos de “freios e contrapesos” entre esses grupos, mas com poder final para os grupos que detêm as propostas ou a maior legitimidade para prevalecer. Esses mecanismos distribuiriam unidades organizacionais e agendas a grupos com visões opostas para que parassem e valorizassem o poder do representante como palavra final. Seguem estratégias para lidar com animosidades e riscos da nova gestão. Uma possível estratégia de gestão da base de apoio é envolvê-los nas discussões programáticas, mantendo-os ocupados discutindo a formatação dos programas com as equipes ministeriais e integrando-os em viagens e inaugurações.
O “centro” não tem orientação ideológica e está voltado para onde há maior possibilidade de ganhos políticos e recursos financeiros. É o grupo que, na mesma proporção em que é possível gerir apoios, também é possível que se oponha a estratégias políticas de enfraquecimento do governo para aumentar os prazos de negociação (tornando-se mais caro obter apoio), para atender às humor da mídia e da população. Uma estratégia possível é envolver parceiros de interesse com agendas locais, aberturas, eventos e liderança em agendas de interesse do governo. Também os deixa ocupados e, de certa forma, divididos para que não articulem estratégias para reduzir o poder do novo governo.
Como lidar com a oposição
Considerando a “oposição”, como se diz, é importante manter seus inimigos por perto para saber o que eles estão fazendo. Gerenciar a polaridade com a oposição é importante porque mantém vivo o apoio da base eleitoral. No entanto, o nível de tensão deve ser calibrado com o número de cadeiras ou a capacidade de bloquear agendas de oposição na Casa Legislativa ou acesso e poder sobre o judiciário e tribunais de contas. Ter oposição é importante para manter vivo o debate público, mas o governo nunca deve ser refém e sim mediador ou condutor do processo.
O dilema entre enviar um pacote de medidas legislativas no início do governo ou fatiar as reformas tem diferentes propostas de abordagem. Um governo eleito com maioria significativa tem legitimidade e força para enviar um pacote de medidas. Já para um governo que saiu de um processo eleitoral quase dividido, a estratégia deve ser outra. Caso contrário, todas as boas ideias do governo podem ser queimadas nos primeiros 100 dias. Nesse caso, provavelmente é melhor não enviar grandes reformas no início. Colocar em pauta uma discussão societária, especialmente as reformas administrativa, trabalhista e tributária, pode ajudar a fortalecê-las dentro de um Congresso hostil. Nos primeiros 100 dias, as propostas de ganho rápido devem se basear em mostrar que o governo, mesmo vindo de uma eleição dividida, tem o poder de definir as cartas na mesa. A partir do momento que a legitimidade cresce, ao final do primeiro ano, as reformas podem ser encaminhadas, definidas a partir de uma postura de “mediador” do governo e não “refém” de uma necessidade de propor reformas. Surgirão crises e, a partir delas, os oportunistas de plantão tentarão colocar o governo contra a parede caso ele se torne refém da demanda da sociedade por reformas.
Nos primeiros 100 dias, as propostas de ganho rápido devem se basear em mostrar que o governo, mesmo vindo de uma eleição dividida, tem o poder de definir as cartas na mesa.
A forma como o novo governo articula sua relação com o Congresso nos primeiros dias de governo deve ser uma estratégia que ganha consistência desde o primeiro dia do anúncio dos resultados eleitorais. Convidar parlamentares para o dia da posse e definir quem está na foto e na agenda política são outras ferramentas que colocam o executivo em uma posição mais consistente quando há um passado histórico de relações de barril de porco selvagem.
Nota: O autor agradece a Frederico de Morais Andrade Coutinho pelos comentários à versão estendida em português.
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(Crédito da imagem: Hansjörg Keller, Unsplash)
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